É costume de um tolo, quando erra, queixar-se dos outros. É costume de um sábio queixar-se de si mesmo. Sócrates.

A liderança vive tomando decisões por forma a implementar as políticas que, ao serem implementadas, levem aos objetivos preconizados. Aliás, não é só a liderança, todos tomamos decisões.

Mas também há lideres que não gostam de tomar decisões, ou pelo menos as decisões menos populares, empurrando as situações em que devem tomar decisões para o próximo. Mas feliz ou infelizmente, a gestão não é um concurso de popularidade em que se deve ser o mais populista possível, pelo contrário, há casos em que a situação exige firmeza e/ou mesmo impopularidade no curto prazo na implementação das boas decisões de longo prazo.

Julgo que, inerente ao processo decisório, podemos identificar, por um lado, o receio do desconhecido, próprio do ser humano e, por outro lado, o receio de errar da parte que quem toma decisões. Erros são cometidos em todas as profissões, em todos os campos da ciência, do desporto, da religião, das artes, e até há erros que acabaram por criar novos produtos os quais hoje facilitam-nos a vida. Mas também há erros que custaram caro em termos de recursos e de vidas humanas.

Portanto, o problema não é o erro em si (ou seja, não estaremos a discutir a natureza do erro), mas sim a postura do líder face ao erro já cometido. A citação de Sócrates é bem paradigmática: a quem imputar a culpa pelo erro? A culpa deve ser assumida pelo(s) autor(es), mas, em última instância, pelo líder da equipa. Costuma-se dizer que quem não erra é quem não toma decisões e, talvez seja por isso que referi no início que há muitos líderes que empurram o processo decisório para frente.

Mas quem é líder não tem escolha entre tomar ou não decisões! Faz parte da sua atividade tomar decisões. Portanto, se queremos minimizar o risco de errar nas decisões, é necessário conhecer minimamente o problema e a solução proposta.

Errando no diagnóstico
Minha grande convição é que a maior parte dos erros cometidos e suas respetivas consequências são devido a um deficiente diagnóstico dos problemas. Fazendo o meu diagnóstico (esperando não estar errado), julgo que o grande erro cometido em todas as esferas da vida é uma deficiente destrinça entre a causa e a consequência, ou seja, as soluções propostas muitas vezes são para as consequências do problema e não para as causas do mesmo problema. São paliativos, não são cura. Muitas vezes tratamos o fruto como sendo o “problema”, quando o verdadeiro problema está na raiz. Um correto diagnóstico deve fazer a clara distinção entre a causa que origina o problema e as consequências ou resultado desse problema, caso contrário não estaremos resolvendo o verdadeiro problema e corremos o risco da suposta solução criar um problema novo.

Criando um problema novo
Assim, cria-se um ciclo vicioso e quem propôs a suposta solução acha que afinal o problema (que continua sendo mal identificado) era mais grave ou mais profundo, pois veio ramificar e criar mais um problema (que não existia, mas sim foi criado pela suposta solução).

Isso tem acontecido muitas vezes no dia a dia porque parece que perdemos um pouco a capacidade de parar e de pensar objetivamente, analisar profundamente e só depois propor soluções.

A influência das redes sociais parece ter contribuído também. Não temos tempo e ficamos apenas ao nível superficial e, como alguém disse, ficamos apenas ao nível do bold e não lemos as letras pequeninas, ficamos o tempo todo repetindo as análises, diagnósticos e soluções que mostraram ser ineficazes para o atual contexto. Muitas destas análises e soluções são do tempo da máquina de dactilografar e do telefone analógico e de um ambiente estável e previsível, mas que são agora transportadas para o novo contexto, um pouco diferente.

*Enfim, diagnóstico errado, solução errada e temos um problema adicional para resolver. E espero também não ter caído no mesmo erro.

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Sobre o autor

Carlos Rocha

Carlos Rocha é administrador do Banco de Cabo Verde, onde desempenhou anteriormente diversos cargos de liderança. Entre outras funções, foi Administrador Executivo da CI - Agência de Promoção de Investimento. Doutorado em Economia Monetária e Estabilização macroeconómica e política monetária em Cabo Verde, pelo Instituto Superior de Economia e Gestão – Lisboa, é mestre em Desenvolvimento Económico e Social em África, com especialização em Política Económica e Desenvolvimento de Negócios,... Ler Mais