Dia 10 de outubro assinalou-se o Dia Internacional da Saúde Mental. Na reflexão associada a esse dia existem alguns dados que, pela sua gravidade, nos deverão deixar a todos preocupados.

Em estudos elaborados recentemente estima-se que 1 em cada 3 trabalhadores se encontra em risco de burnout e que o custo do fenómeno para as empresas é estimado em 329 milhões de euros, se se tiver em consideração o absentismo e a perda de produtividade. Paralelamente, de acordo com o Relatório do Programa Nacional para a Saúde Mental de 2017, o consumo de antidepressivos duplicou em Portugal em 4 anos.

Devemos estar preocupados? Eu diria que sim. Que deveríamos estar muito preocupados!

Mudemos o foco para as pessoas que estão detrás dos números. Estas são as pessoas com quem nos cruzamos na rua, é o nosso vizinho do lado ou o nosso colega de trabalho. E sendo o nosso colega de trabalho, a pergunta que se coloca é “será que a causa para a deterioração da Saúde Mental é o ambiente de trabalho?”

E para quem tem a responsabilidade de gerir pessoas esta não pode ser uma questão secundária. Esta é uma questão de vital importância. Não só porque afeta a qualidade de vida dos colaboradores, mas também porque põe em causa a sustentabilidade da organização. Uma organização doente não atrai talento, e consequentemente não se consegue reinventar e manter-se competitiva.

Neste contexto gostaria de realçar o estudo realizado pela Google que, durante 2 anos estudou o comportamento de 180 equipas e cuja conclusão foi:

“Equipas altamente produtivas têm um traço em comum, psychological safety”.

O que é psychological safety?

Psychological safety está associado à existência de um ambiente de trabalho que me permita arriscar, sem ter medo de ser julgado ou de cometer erros.Tem a ver com o nível de confiança que se estabelece entre os membros da equipa que me permite expressar a minha opinião e pontos de vista, estando seguro que os meus colegas me irão apoiar mesmo que falhe.

Quais são os benefícios?

Uma equipa em que existe psychological safety é uma equipa muito mais propensa a partilhar e consequentemente a aprender.

Sendo a confiança a premissa base de funcionamento, os membros da equipa não só não têm medo de partilhar os erros, como existe uma vontade de o fazer. O erro é visto como algo que pode melhorar a performance da equipa no médio prazo, pelo que é importante refletir e integrar as conclusões em conjunto.

Em temos globais, uma equipa que se sente segura é consequentemente mais inovadora e mais experimentalista. Tratam-se de equipas que arriscam mais e que nutrem a criatividade dos seus membros.

São também equipas onde o feedback não só é pedido, como é esperado. O feedback é visto como algo muito positivo e que me permite melhorar.

O que acontece quando não existe Psychological safety?

Esta questão remete-me para o início deste texto. Sempre que uma pessoa não se sente segura, quer porque se sente intimidado pelo seu chefe, ou pela falta de confiança num colega, o cérebro processa a situação como uma ameaça real de vida ou morte. A amígdala, a campainha de alarme do cérebro, inicia o processo de fight-or-flight. Este processo coloca-nos num modo de “agir primeiro, pensar depois”, perdendo-se a capacidade de racionalizar. Em termos simplificados, deixamos de conseguir pensar, dado estarmos ocupados a tratar da nossa sobrevivência.

Ao entrar neste modo o corpo entra em stress real e as pessoas entram em sofrimento. E é exatamente por causa disso que, quando somos expostos a ambientes nocivos durante um alargado período de tempo, começamos a desenvolver patologias e doenças de índole mental e físico.

Em conclusão…

Apesar de muitos destes conceitos não serem novos e de se antever que o trabalho do futuro vá requerer um tipo de liderança diferente, a verdade é que o agravamento dos dados relativos ao burnout parecem indicar que ainda muito pouco está a ser feito no sentido de criar o contexto para que as pessoas, e consequentemente as organizações, floresçam.

Neste contexto, é responsabilidade de cada um de nós, a promoção de ambientes de trabalho que permitam que as pessoas se sintam seguras, e consequentemente deem o melhor de si. Ao agir desta forma estaremos a contribuir para uma sociedade mais equilibrada, social e economicamente mais próspera.

Assim, e em linha com essa intenção a questão que nos devemos colocar é:  

“estou a contribuir para o build up (a construção/melhoria) ou estou a contribuir para o burn out (deterioração /destruição) das pessoas e do ambiente de trabalho?”

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Sobre o autor

Anabela Possidónio

Anabela Possidónio é diretora executiva do The Lisbon MBA e Executive Coach certificada pela ICF. Anteriormente à função que desempenha atualmente, esteve 20 anos no mundo corporativo, 14 dos quais na BP, tendo trabalhado em Portugal, no México, em Espanha... Ler Mais