Sempre ouvi gente suspirar por um grande líder do mundo das empresas a comandar o governo. Essa ideia sempre me assustou. Liderar um governo é liderar uma democracia, não é liderar uma economia. E os líderes das empresas não percebem nada de democracias. As empresas são regimes autocráticos, em que uma pessoa toma todas as decisões importantes. Todas as outras pessoas se limitam a implementar essas decisões.

Mas o que interessa aprender com o Trump não é o perigo de ter um líder empresarial como líder político. Não. O que interessa aprender com o Trump é o dano que um líder pode impor a uma empresa e às pessoas que lá trabalham. Terror, ameaça e subordinação são, ou pelo menos já foram, experiências diárias para muitos de nós. E pior. Ter que escolher entre fazer o mesmo aos outros ou ir procurar emprego para outro lado.

Claro que nem todos os líderes são como o Trump. Há piores e há melhores. Mas, à velocidade com que há mudanças na liderança hoje em dia, é basicamente como jogar no Euromilhões. Até pode dar para ganhar, mas muitas vezes dá é para perder. É só uma questão de tempo.

Nos países democráticos há controlos sobre o governo. Os dois mais importantes são os tribunais e a imprensa (em teoria também há o Parlamento, mas não quando há maiorias fortes). Nas empresas esses controlos não existem.

Em teoria há um conselho de administração que tem como objetivo assegurar-se de que o trabalho do líder de uma empresa vai de encontro aos interesses dos acionistas. Mas, com os escândalos dos últimos 15 anos, é muito difícil de acreditar que essa função está mesmo a ser cumprida. A imprensa também não tem conseguido cumprir esta função. Mesmo nos casos graves como os da Enron, só vieram a público tarde demais. Nalguns países, como a Alemanha, ainda há sindicatos que parecem ser mais ou menos eficazes a cumprir esta função, especialmente quando têm assento no Conselho de Administração. Infelizmente, em muitos outros países os sindicatos perderam este papel.

O resultado é que muitos de nós vivemos a maior parte do tempo numa autocracia onde não há nenhuma forma eficaz de vigiar e muito menos controlar quem tem poder. Isso preocupa-me por causa das pessoas que lá trabalham. Mas mesmo quem acha que as empresas devem poder fazer o que lhes dá na real gana, deve preocupar-se com isto. Porque as empresas não são dos seus líderes, são dos acionistas. E a falta de supervisão eficaz dos líderes das empresas tem levado à destruição massiva de valor, com consequências não só para investidores ricos, mas também para idosos que pouparam a vida toda para a reforma.

Em vez de fazer apelos aos governos que podem estar sujeitos a influência das empresas, em vez de fazer apelo aos trabalhadores que se podem sentir ameaçados pela possibilidade de serem despedidos, vou fazer um apelo aos líderes.

Todos os líderes que querem contribuir para a empresa, em vez de brincar ao Trump, precisam de um mecanismo eficaz de supervisão e controlo que os mantenha honestos e que os desafie a procurar soluções para os problemas, em vez de tentar melhorar os sintomas de que sofre a sua empresa.

É mais difícil liderar assim. Mas é a melhor forma de usar o nosso papel de liderança para, de facto, criar valor.

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Sobre o autor

João Vieira da Cunha

João Vieira da Cunha é escritor. Utiliza uma variedade de meios para partilhar as suas ideias, desde as mais prestigiadas revistas científicas na área da gestão até uma conta rebelde no Twitter. É doutorado em Gestão, pela Sloan School of Management do MIT, e Mestre em Comportamento Organizacional, pelo ISPA. A sua escrita tem um tom irónico e provocador. O objetivo é ajudar os gestores a refletir sobre o que... Ler Mais