Há pouco tempo, numa palestra dedicada ao tema “Disruption”, ouvi (a convite da Second Home) o Robert Senior, ex -CEO Worldwide da Saatchi & Saatchi. Várias frases me captaram a atenção, mas nenhuma mais do que esta: “Making motion is different from making progress!”

De facto, muitas vezes confundimos movimento, ou a capacidade de gerar novas iniciativas, como progresso, ou a capacidade de ir do ponto A para o B. São complementares, e trabalham quase sempre em paralelo, mas não necessariamente sinónimos. Repare-se que o movimento pode ser circular, ou seja o ponto de chegada e o de partida são o mesmo, e o progresso, por definição, não…

Portugal gozou de uma sensível retoma económica nos últimos tempos, mas começa a instalar-se a sensação generalizada de que este ciclo não vai durar muito mais, e  que estamos perto de uma contracção. A desaceleração do turismo ou do imobiliário começa a assustar alguns setores, a instabilidade das exportações levanta dúvidas sérias sobre a nossa competitividade, e a muito falada possibilidade da saída da Web Summit de Lisboa quase “confirma” o fim de uma era dourada.

No entanto, Portugal é hoje um dos principais mercados em termos de atratividade de investimento externo de curto prazo na Europa, não apenas por ser um país seguro e com excelente mão de obra e qualidade de vida, mas também porque o crescimento em termos económicos é real, sustentado por uma estratégia consistente a nível de políticas de inovação, e pela aposta num ecossistema tecnológico relevante, com uma boa articulação a nível das suas grandes regiões.

No momento em que escrevo este texto, acaba de ser anunciado que o Techstars, um dos maiores players internacionais, vai chegar a Portugal muito brevemente. A Semapa anunciou que pretende lançar um programa de aceleração anual com duração de três anos, em parceria com a Techstars, através da sua participada Semapa Next. A ideia é, dentro do programa, acelerar empresas em três áreas: indústria e ambiente, transportes e logística e viagens e lazer.

Ou seja, numa fase em que o “movimento” do ecossistema de Lisboa parece estar a abrandar, é possível confirmar que o seu “progresso” se mantém e afirma… Nesse sentido é muito importante estimular programas como o nosso Lisbon Challenge, a maior referência em termos de acelerador com investimento em Portugal, e que abriu agora candidaturas para a sua próxima edição, nem de propósito…
Trata-se de um programa internacional de aceleração de três meses para start-ups ambiciosas de base tecnológica. As equipas selecionadas garantem entrada neste prestigiado programa de aceleração, que tem lugar ao longo de 10 semanas, de 10 de outubro a 14 de dezembro, e está dividido em quatro fases: Validação, Produto, Crescimento e Investimento.

Uma das principais novidades está no modelo de investimento, que foi repensado: as start-ups selecionadas recebem logo à partida 15 mil euros, em troca de 2% do seu capital, para poderem estar completamente focadas no desenvolvimento do produto, sem preocupações financeiras. Mais tarde, há a opção de investir até mais 55 mil euros por 5% do capital, para as start-ups que mais se destacarem no programa.

O Lisbon Challenge arrancou em 2013, numa altura em que este tipo de oferta pura e simplesmente não existia no mercado nacional, e ao longo das suas nove edições, contou já com a participação de 220 start-ups, de mais de 50 países. As equipas que passaram por este programa somam algo como 65 milhões de euros de investimento total.
Note-se que no auge da crise, as start-ups eram vistas como um dos drivers de crescimento e afirmação da nova dinâmica de Portugal. A verdade é que, apesar de hoje se falar cada vez mais da chegada de grandes empresas e dos futuros unicórnios, é importante continuar a apostar em start-ups nas fases iniciais e atrair e reter cada vez mais start-ups internacionais, criando condições para que fiquem. São elas que constituem a base da pirâmide deste ecossistema de inovação, e sem elas não há progresso, por muito movimento que se gere.

Se olharmos para outros hubs de referência, como Paris, Berlim ou Londres, notamos que continuam a apostar fortemente na criação de novas start-ups e no apoio à criação de aceleradores, incubadoras e fundos relevantes, tanto nacionais como internacionais.

Programas como o Lisbon Challenge, ou o agora anunciado Semapa/Techstars, possuem grande capacidade de atração internacional, o que contribui para criar massa crítica de start-ups relevantes. Para além disso, capacitam realmente os empreendedores, investem de facto, de forma rápida, e em linha com as melhores práticas internacionais, e contribuem objetivamente para criar uma rede global de mentores e investidores, que são determinantes para a construção de um ecossistema de inovação.

Voltando a pedir emprestadas as sábias palavras de Robert Senior, “if we were to design a company to kill us, what would it look like? Companies must be ready to disrupt all non-core activities and units, in order to evolve in this volatile economy”… Ninguém sabe fazer isto tão bem como as start-ups em início de vida!

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