Sou da opinião de que a expressão WORK-LIFE BALANCE está mal construída, porque WORK faz parte de LIFE. A expressão parte da base que LIFE engloba  tudo o que não é tempo dedicado ao trabalho, ou seja, o tempo com a família, com os amigos e o tempo para nós. A expressão sugere que WORK e LIFE são coisas diferentes.

Na verdade a nossa vida é uma mistura de todas essas coisas e a linha que separa umas das outras não é nítida e varia com o contexto (idade, situação pessoal, situação profissional) e com a nossa forma de encarar a vida. Isto significa que este equilíbrio é individual e consequentemente pode ser diferente para cada um de nós. O único que é certamente verdadeiro é que temos que ter tempo para as quatro coisas: trabalho, família, amigos e nós próprios, na proporção que entendamos adequada para nós, porque se não dificilmente vamos estar equilibrados e essa falta de equilíbrio se irá reflectir no nosso desempenho  pessoal e profissional. Nada de novo, está há muito tempo demonstrado, mas a verdade é que, na prática, poucos conseguem encontrar o ponto onde essas variáveis juntas fazem sentido e se alimentam umas às outras, e menos ainda, conseguem mantê-lo de forma sustentável.

Na lógica das 168 horas semanais, o equilíbrio de José, solteiro, licenciatura com MBA que trabalha numa consultora internacional é aproximadamente:  Trabalho – 60, Dormir – 49, Família, Amigos e o próprio – 59. Nas 59 horas por semana em que José não está a dormir nem a trabalhar, vai ao ginásio, vê séries de televisão, sai com os amigos, procura namorada  e almoça com os pais ao fim de semana. José gosta da sua vida, está a investir na sua carreira e sente que é isso o que deve fazer. Tem o seu equilíbrio. Sente-se bem.

Em alternativa, Maria, Directora de Marketing numa multinacional na área das telecomunicações, casada com dois filhos menores, trabalha 50 horas, dorme 42 horas, dedica à família 30 horas e tem para si e para os amigos 36 horas. Não vai ao ginásio, durante a hora do almoço vai ao supermercado ou comprar coisas que fazem falta aos miúdos. Muitas vezes adormece no sofá. Está cansada, não consegue encontrar tempo para fazer o curso de pintura que anda a namorar há tanto tempo. Está sempre a pedir favores à sua sogra. Pergunta-se qual é o sentido deste ritmo de vida, que não lhe deixa tempo para fazer pequenas coisas que a fazem feliz. Ela não pode reduzir o número de horas que trabalha na empresa, até parece mal, ia ser a única a sair antes das 19h. Maria não se sente bem.

O equilíbrio é uma escolha nossa, não podemos deixar que ninguém faça essa escolha por nós e é aqui onde os ambientes empresariais saudáveis e os tóxicos têm um papel relevante e uma contribuição determinante. É nesta componente que nós, gestores e líderes de equipas, podemos fazer a diferença.

Todas as organizações sabem que colaboradores saudáveis física e mentalmente são colaboradores mais produtivos. Um estilo de vida saudável passa por ter tempo para desenvolver as outras três componentes  que não a profissional. Passa por nutrir os níveis intelectual, emocional e espiritual na proporção adequada. Para isso tem de se ter tempo, não faz sentido que se trabalhe por regra mais do que 9 horas por dia. Sim, não faz. 9 horas bem trabalhadas, a dar o melhor. Obviamente há situações excecionais, repito, excecionais e inesperadas (porque se não o forem nós estamos a gerir mal) em que também do lado do colaborador tem que haver disponibilidade para dar do seu tempo pessoal à empresa. Em que se tiver que responder a um email num domingo, não há nenhum drama. Isto porque na verdade a linha que separa a vida pessoal da profissional não é totalmente nítida. Se tenho um problema em casa, tenho um filho doente, ou tive uma discussão com o meu marido, é normal que no consciente e no inconsciente essa situação venha comigo para o trabalho e me afete a produtividade. Da mesma forma que se estou com um problema complicado no trabalho, isso se reflita na minha falta de paciência para ir ao supermercado ou para alinhar numa ida à praia com a família sabendo que vou ter pelo menos 1 hora de fila na ponte. O nosso cérebro não está dividido em duas caixas que não comunicam.

Posso dizer com serenidade que pratico o que predico. Na minha empresa há 5 anos começamos todos a trabalhar entre as 8h30 e as 9h30 e saímos entre as 18h e as 18h30. Se um dos meus colegas tem um problema em casa, eu quero saber. Se preciso que alguém me dê apoio com um cliente que chega no fim de semana ao aeroporto, quero poder pedir também ajuda à vontade. Durante o tempo em que estamos a trabalhar, essas 8 ou 9 horas, estamos mesmo a trabalhar. Funciona. Temos vida, fazemos muitas outras coisas, encontramos o nosso equilíbrio. Somos mais criativos, somos mais saudáveis. Somos mais produtivos.

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Sobre o autor

Belén de Vicente

Belén de Vicente é fundadora e diretora geral da Medical Port, a porta de entrada para cuidados médicos em Portugal, para quem vem de outros países. Foi diretora do MBA Lisbon, contando com mais de 20 anos de experiência em... Ler Mais