O ser humano habitua-se às coisas boas e deixa de as agradecer. Profissionalmente este comportamento ainda é mais extremo do que no âmbito das relações pessoais.

Nas organizações muitas vezes pressupõe-se que porque as pessoas têm obrigação moral e profissional de fazer sempre o seu trabalho o melhor possível, essa situação “normal” não exige nenhum tipo de reconhecimento.

Quando era pequena a minha avó fazia o jantar todos os dias, também era “normal”, mas o meu avô agradecia-lhe cada noite. Quando penso nisto tenho a certeza de que esse pequeno gesto tornava tudo diferente na perspetiva dela. Um agradecimento normal para um ato normal.

No âmbito empresarial o reconhecimento costuma estar associado às avaliações de desempenho. Que tristeza! Encerrar numa única ocasião todo o agradecimento que um colaborador da nossa equipa merece. Que pouca generosidade do lado dos gestores. E que grande desequilíbrio quando comparamos com os momentos de feedback negativo. Temos uma tendência inata (muitas vezes também cultural) para ver o que não funciona, o que os outros fazem mal.

Dizer obrigado não custa, é grátis, e faz muita diferença. Não me refiro ao “obrigado” que nos ensinam de pequenos e que vai a par do “por favor” nas conversas entre pais e crianças, isso é apenas educação, cortesia. Estou a falar do obrigado que corresponde a um ato de reconhecimento do trabalho ou da atitude de um colaborador que tornou uma determinada situação melhor do que podia ter sido, que fez mais do que se esperava ou que evidenciou um comportamento digno de admiração. Não é preciso ser uma situação extraordinária. Um simples obrigado genuíno justifica-se para alguém que ficou mais uma hora do seu tempo pessoal a acabar um trabalho importante, para alguém que teve a boa ideia de trazer bolinhos para a reunião, para alguém que apresentou uma nova perspetiva para um problema existente na empresa ou para quem nos faz uma crítica construtiva. É um obrigado que leva um sorriso associado, e se não é possível pela distância, leva um SMS sorridente também.

O obrigado ainda tem a vantagem de poder ser feito em público ou em privado, não é como o apontar de erros ou falhas, que só pede privacidade. E tem de ser feito logo a seguir ao ato ou palavra que queremos reconhecer. Dizer obrigado seis meses depois de o prazo de entrega ter acabado, num corredor, a correr, sem olhar nos olhos, a um elemento de equipa que trabalhou intensamente para cumprir a entrega, é certamente de mau gosto.

Mas ainda há alguém que pensa que o reconhecimento é um sintoma de fragilidade? É porque é exatamente o contrário. Porque dizer obrigado implica humildade. A humildade é uma caraterística fundamental da liderança. Ryan Fehr da Washington University, no âmbito das investigações que realizou, diz que há muitos gestores que pensam que no contexto organizacional é suposto ser-se profissional. Coisas como perdão, compaixão ou gratidão podem ser mal entendidas.

Mas quem pratica sabe que ser grato só apresenta benefícios, quer para quem diz o obrigado como para quem o recebe. Já experimentou ver o brilho nos olhos do destinatário do obrigado? Mark Twain dizia: “I could live two months on a good compliment”.

A cultura de gratidão desenvolve-se mas só vinga se for genuína. Como tudo nas organizações, as práticas forçadas e desenquadradas são logo esquecidas, contornadas, violadas ou cumpridas nos mínimos. Pode começar a praticar já, ponha os óculos que só lhe permitem ver os aspetos positivos e agradeça a quem os proporciona e explique o porquê. Há certamente muitas pessoas a quem reconhecer entre os membros da sua equipa. Se nunca o fez antes vão olhar para si de forma estranha, mas se estiver mesmo convencido da importância deste ato, pode explicar que percebeu que tem à sua volta coisas boas que nunca agradeceu.
Dê o exemplo, por favor. Obrigada!

Comentários

Sobre o autor

Belén de Vicente

Belén de Vicente é fundadora e diretora geral da Medical Port, a porta de entrada para cuidados médicos em Portugal, para quem vem de outros países. Foi diretora do MBA Lisbon, contando com mais de 20 anos de experiência em... Ler Mais