A APIGRAF entregou na semana passada os prémios de excelência do seu setor e, a propósito do evento, o Link To Leaders conversou com o seu presidente para traçar o perfil do setor e analisar as tendências que se adivinham.

A Associação Portuguesa das Indústrias Gráficas e Transformadoras do Papel (APIGRAF), agrega um conjunto de empresas responsáveis por muitos objetos que fazem parte do dia a dia de todos nós: livros, embalagens, sacos. Atenta às  inovações e à transformação digital que, à semelhança de outros setores, também não passam ao lado desta atividade, a Associação reconhece que as empresas estão a conviver bem e, há muitos anos, com a modernização e as novas exigências do mercado. Aliás, para promover a excelência da atividade, desde 2015 que distingue as empresas nacionais que se destacam no setor. A edição mais recente dos prémios Excelência 2018 da APIGRAF, realizada na semana passada, foi o ponto de partida para uma entrevista a José Manuel Lopes de Castro, presidente da Associação, sobre  os desafios desta indústria.

Qual o objetivo dos prémios Excelência 2018 da APIGRAF?
São atribuídos anualmente a um conjunto e empresas dos nossos sectores industriais e pretendem evidenciar parte da muita qualidade com que se trabalha em Portugal. As empresas premiadas apresentam o melhor desempenho relativamente a um conjunto de indicadores objetivos, sendo identificadas pelo knowledge partner Informa D&B mediante a aplicação dos critérios ao universo elegível.

Quais os critérios dominantes na escolha das empresas?
Não se trata de uma escolha, mas antes de uma identificação objetiva de desempenho. As empresas são  agrupadas em Grandes, Médias ou Pequenas Empresas ou em Microempresas associadas, consoante indicadores de número de trabalhadores, volume de negócios e ativos. Dentro de cada um destes universos,  são seriadas de acordo com uma multiplicidade de indicadores objetivos, com pontuação atribuída ao crescimento das vendas e do número de trabalhadores, à margem de EBITDA, ao VAB, à rentabilidade do capital próprio e do investimento, à autonomia financeira e à solvabilidade.

Estamos sempre presentes na vida das pessoas e das empresas, fazemos as embalagens e cartões que utiliza, os livros e demais publicações que lê, os sacos e a sinalização sem os quais a sua vida seria muito mais difícil (…)

Como tem evoluído o prémio e a adesão das empresas à iniciativa?
Este prémio é a ocasião de destacarmos o trabalho de todo um setor, honrando os melhores desempenhos, e atribuímo-lo em conjugação com os Prémios Inovação ou Prestígio.Tem sido a oportunidade para mostrarmos o que são as indústrias gráficas e transformadoras do papel hoje, um setor dinâmico e capaz de dar resposta aos mais variados desafios.

Estamos sempre presentes na vida das pessoas e das empresas, fazemos as embalagens e cartões que utiliza, os livros e demais publicações que lê, os sacos e a sinalização sem os quais a sua vida seria muito mais difícil, os cartazes que lhe dão a conhecer as mais variadas iniciativas. Revestimos de publicidade os carros da empresa e de decoração as paredes dos hotéis, e produzimos os cartões pessoais que todos utilizamos. Olhe para a Web Summit e imagine o evento sem produtos dos nossos setores: impossível.
Relativamente às empresas temos recebido comentários muito positivos sobre a iniciativa, sejam empresas do setor, fornecedoras ou clientes, pelo que este evento é para continuar!

(…) a ética, a inovação, em sentido lato, e o espírito empreendedor são também fatores que contribuem decisivamente para uma organização de excelência.

Quais devem ser os princípios da “excelência empresarial”?
No âmbito deste prémio os critérios estão tipificados e são essencialmente de índole económica. É uma das vertentes da excelência. Diria que a ética, a inovação, em sentido lato, e o espírito empreendedor são também fatores que contribuem decisivamente para uma organização de excelência.

Papel ou digital. Como vê o futuro desta relação?
Com entusiasmo e numa perspetiva de complementaridade. Qualquer análise objetiva desta matéria conclui que cada um destes meios tem uma utilidade e eficácia própria e as nossas indústrias trabalham a área do digital há mais de 20 anos. Quem conhece o setor sabe bem a tecnologia de ponta que utiliza, expressa, aliás, na onerosidade dos equipamentos empregues.

Como é que este setor de atividade está a conviver com a digitalização e com a transformação digital?
Estamos a conviver bem, há muitos anos. É verdade que há mercados que se vão reduzindo ou mesmo desaparecendo, outros há que se transformam em nichos para segmentos de qualidade superior ou de universos vintage, mas a digitalização cria outras oportunidades. A área dos livros é um caso curioso: sofreu algum impacto com o entusiasmo gerado pelos tablets, mas rapidamente recuperou dinamismo e permitiu o aparecimento de todo um universo de autores que querem ver os seus livros publicados. Em papel, pela perenidade que se lhe associa. As nossas indústrias encaram a realidade como ela é, estão atentas às dinâmicas e adaptam-se, reativa e proativamente.

Quais as principais transformações que o setor tem vivido nos últimos anos?
Alguma redução no número de empresas e trabalhadores. Alguns movimentos de concentração empresarial, a alteração dos perfis dos consumidores e todo o impacto que tal implica, a maior atenção à sustentabilidade ambiental, necessariamente a digitalização, a alteração dos perfis de competências laborais, o impacto da globalização comunicacional com as implicações comerciais e empresariais óbvias, entre outras.

O setor tem conseguido acompanhar o ritmo da inovação?
É uma pergunta de enorme latitude, deixe-me responder em duas vertentes. A APIGRAF acabou de atribuir o Prémio Inovação à Bulhosas (Irmãos) S. A., uma empresa associada que colabora no desenvolvimento, fabrica e promove coisas como selos de prevenção de contrafação baseados em ADN ou tiras de deteção de explosivos e estupefacientes, para utilização, por exemplo, em aeroportos. Uma empresa com mais de 80 anos de atividade, o que em termos de acompanhamento da inovação fala por si…

Por outro lado, como referi anteriormente, este setor utiliza tecnologia de ponta, quer se trate de equipamentos quer de consumíveis ou matéria-prima, o que requer naturalmente não só acompanhar a inovação produtiva como proceder internamente a toda a alteração que a utilização destes equipamentos requer. Desta forma sumária responderia positivamente: sim, os setores industriais gráfico e transformador do papel acompanham o ritmo da inovação, fazem-no há muito!

 (…) as start-ups podem ser uma mais valia enquanto promotoras de soluções inovadoras, integradas num setor em que coexistem com um universo industrial dinâmico.

De que forma os centros de tecnologia e as start-ups podem ser uma mais-valia para este setor de atividade?
Pressupondo a utilização dos mesmos conceitos dirá que somos eventuais utilizadores do trabalho dos centros de tecnologia, e parceiros interessados e disponíveis naquilo em que pudermos. Mas somos um setor de micro e PME, com estruturas internas que não comportam departamentos de investigação, o que necessariamente condiciona a nossa ação.

No que se refere a start-ups, e entendendo-as como projetos em que um grupo de empreendedores utiliza um modelo de negócios repetível e escalável num ambiente de extrema incerteza, tudo depende da ideia a desenvolver. Um exemplo normalmente utilizado no nosso setor é a 360imprimir, uma empresa “fabless”. Mas esta empresa tem que ter as “fabs”, as fábricas que asseguram a execução dos trabalhos a entregar aos clientes. Ou seja, as start-ups podem ser uma mais-valia enquanto promotoras de soluções inovadoras, integradas num setor em que coexistem com um universo industrial dinâmico

Que tendências se adivinham para esta atividade empresarial, nas suas mais diversas vertentes?
Entre outras tendências avulta a de que o trabalho parametrizável e repetível sofrerá o impacto da quarta revolução industrial e da inteligência artificial, eliminando conjuntos funcionais e criando outros. As dinâmicas demográficas e a orientação dos consumidores para a sustentabilidade terão impactos diversos nas muitas áreas de atividade de que os nossos setores são feitos. Um bom exemplo são as embalagens, que já passaram pela redução ao envolvimento unidade a unidade e pela tendência da embalagem reutilizável, bem como pela pressão da encomenda online que requer o embalamento para envio ao consumidor.
Só estes fatores têm já implicações de enorme profundidade, que podem alterar bastante as áreas de desenvolvimento empresarial expectável. A sobrecarga digital a que todos estamos sujeitos dá já sinais de promoção da comunicação em suportes diferentes, entre os quais os impressos, para assegurar a visibilidade. Estes são apenas alguns exemplos de tendências que presumimos que afetem o setor de forma mais próxima.

Que outro tipo de iniciativas, além dos prémios, desenvolve a APIGRAF para dinamizar este setor empresarial?
Como estrutura associativa, desenvolvemos as atividades de promoção dos interesses do setor, de informação triada e fiável e de polo aglutinador da rede que são fundamentais para que represente uma mais-valia para as empresas associadas. Realizamos há mais de 20 anos um encontro anual de empresas associadas, promotor das relações de confiança interempresarial e das redes de cooperação, outros eventos de caráter formativo ou informativo, como o congresso que, em 2018, reuniu em Lisboa portugueses, espanhóis, franceses e italianos – o SEPC 2018 –, ou protocolos como a aquisição de energia em grupo, a que aderiu a maior parte do universo associado elegível. São apenas alguns exemplos, a que não posso deixar de acrescentar o estudo de categorias e carreiras que estamos presentemente a desenvolver com a colaboração de uma entidade universitária e o projeto europeu de identificação de competências necessárias no futuro e de reforço da atratividade do setor. São projetos que consideramos fundamentais para o desenvolvimento das nossas indústrias.

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