Reconhecer e apoiar PMEs portuguesas que tenham superado desafios empresariais exigentes e dado o “salto”. Este é ponto de partida da iniciativa Heróis PME. Bernardo Maciel, partner da Yunit Consulting e organizador dos prémios, traçou o perfil e as ambições deste projeto que cumpriu este ano a segunda edição.

Como surgiu esta ideia da Yunit Consulting para apoiar pequenos e médios empresários?
Surgiu com base na observação das centenas de clientes com quem já trabalhámos, que tipicamente são pequenas e médias empresas. E também na nossa própria história: somos, nós próprios, uma PME, tivemos um percurso semelhante a muitas destas empresas. Criámos os Heróis PME porque havia um défice de reconhecimento das PME e quisemos mudar isso. Elas têm um papel muito importante na economia portuguesa, mas não têm um reconhecimento proporcional à sua importância. Representam 99% do tecido empresarial, geram quase 80% do emprego e 67% da riqueza produzida. São empresas que conseguiram dar o salto e ter um impacto positivo na vida de milhares de pessoas. E são, ao mesmo tempo, os grandes agentes do desenvolvimento das regiões onde estão inseridas e da internacionalização da nossa economia.

Por outro lado, o que constatámos é que por trás do êxito dessas empresas há sempre uma história humana que merece ser conhecida. A história de alguém que um dia teve uma ideia, uma visão, e lutou por ela até que se tornasse um caso de sucesso – muitas vezes tendo de vencer enormes adversidades. Estes empresários merecem o protagonismo. Reconhecer o seu heroísmo é importante não só para cada um deles, a nível pessoal, mas também para as próprias organizações, os seus colaboradores e parceiros de negócio.

O objetivo, então é duplo: não é só premiar a visão, a ousadia e a persistência destes empresários portugueses, mas também dar a merecida visibilidade às PME. Porque nós acreditamos que são estas empresas que levam Portugal para a frente.

Globalmente, como carateriza o perfil dos Heróis PME nacionais?
É um perfil bastante variado. Há os que herdaram um negócio de família e tiveram a coragem de não apenas continuar o que receberam, mas dar o salto para uma renovação radical. Há os que parecem ter nascido com a vocação de empreender, e por isso começaram muito jovens, às vezes sem mais capital do que as suas ideias e uma enorme determinação. E há também aqueles que se tornaram empresários quase por acaso ou por força das circunstâncias. Alguns, apesar da sua pouca escolaridade, foram aprendendo pelo caminho as competências de que precisavam para fazer descolar os seus projetos. Mas, na maior parte dos casos, e contrariando algumas ideias feitas sobre as PME portuguesas, os nossos Heróis são empresários bastante sofisticados, que investem muito na sua própria formação. Investem muito, também, nas suas equipas, com quem todos os vencedores fizeram questão de dividir o mérito do prémio.

Apesar de toda essa diversidade, o que caracteriza todos estes empresários são – e não poderia ser de outra forma – algumas características pessoais muito marcantes. Todos mostram um grande otimismo, uma grande capacidade de encaixe que lhes permite, mesmo quando as coisas correm mal, recomeçar as vezes que forem necessárias.

Mostram também uma grande humildade. São pessoas que muitas vezes nem têm uma noção clara de como são pessoas extraordinárias: para eles estão apenas a fazer o seu trabalho. E, quando se dão conta do seu mérito, nunca o reivindicam só para si próprias, têm sempre a consciência de estarem a dar a cara por uma equipa muito maior.

De que forma o projeto Heróis PME os pode apoiar?
Vamos continuar a apoiá-los como já conseguimos fazer nestas duas primeiras edições. Primeiro, dando visibilidade tanto a estes empresários como às suas empresas. Dando-lhes, além disso, o reconhecimento que merecem, e que, nalguns casos, não recebem nem de si próprios. O prémio leva-os a tomar consciência, pela primeira vez, da importância do que realizaram.

Outro efeito positivo é o impacto deste prémio na motivação dos colaboradores das empresas, mesmo quando não vencem. O simples facto de se mobilizarem para ir à final já cria um ambiente interno diferente.

Por fim, o prémio está a revelar a vários destes Heróis que não estão sozinhos: há outros empresários como eles, com trajetórias diferentes, mas com muitos pontos em comum. Está a acontecer algo que é muito gratificante para nós: os Heróis entram em contacto uns com os outros, trocam experiências, alguns até fazem negócios entre si. Temos muito orgulho de lhes estar a proporcionar este novo fórum.

Quais os critérios base para selecionar as empresas finalistas/vencedoras?
O mais importante é encontrar as melhores histórias para contar. Histórias que demonstrem ousadia e persistência, com um ou mais momentos decisivos nos quais as empresas tiveram de dar um salto. É claro que as empresas devem ter bons resultados. Procuramos histórias que sirvam de exemplo para o mercado e que inspirem outros empresários e outras empresas. Mas há critérios claros definidos para o prémio: a visão, a coragem empresarial de acordo com o contexto, a criatividade e o impacto causado.

Impacto este que não é só para a empresa e para os seus colaboradores, mas para a comunidade à sua volta a até para toda uma região, já que muitas vezes estamos a falar de empresas fora dos centros urbanos.

A avaliação tem duas fases de seleção. Na primeira é o público quem escolhe as suas favoritas. Todas as empresas candidatas vão a votação no site heroispme.pt e as dez mais pontuadas são selecionadas para a final. Na segunda etapa, um júri composto pelos nossos parceiros seleciona as cinco vencedoras.

Qual o impacto real destes prémios na vida das empresas?
Além dos troféus, há benefícios para todas as empresas que se candidatam. Para as vencedoras mas também para as empresas finalistas e as demais concorrentes ao prémio.

Primeiramente, dá uma visibilidade mediática com um valor económico palpável para as empresas. Basta olhar os números: mais de 3 milhões de portugueses contactaram com as campanhas. Nesta segunda edição, tivemos 190 emissões na SIC Notícias durante 12 semanas. Mais de 120 mil utilizadores e 375 mil views no site, mais de 13 mil fãs no Facebook e mais de 22 mil votos.

As cinco empresas vencedoras tiveram um episódio exclusivamente dedicado ao seu percurso na série Heróis PME, da SIC Notícias. A gala de entrega dos prémios aos vencedores foi transmitida em direto nas redes sociais do projeto e na página da SIC Notícias no Facebook.

A participação em si já é uma oportunidade para reavivar o ambiente das empresas e motivar equipas. A mobilização para conseguir votos é uma excelente oportunidade para comunicar com novos parceiros de negócio. Por fim, mas não menos importante, há também o resgate do orgulho pessoal que este reconhecimento traz aos vencedores.

Enquanto organizador da iniciativa, e do contato que tem com o mercado, como avalia o atual cenário das PME nacionais?
As PME desempenham hoje um papel importantíssimo na economia nacional. São os agentes da internacionalização da economia portuguesa e, por via das exportações, representam já 45% no nosso PIB. E a previsão é de que em 2025 representem cerca de 50%. Operam em todos os setores de atividade – comércio, indústria e serviços – e, estando distribuídas por todo o país, são também as maiores responsáveis pelo desenvolvimento das regiões onde estão inseridas.

Com esta iniciativa queremos não apenas dar visibilidade a estas empresas, mas, principalmente, queremos ajudá-las a encontrar novos parceiros e a expandir os seus negócios.

No contexto empresarial nacional, qual é o papel das start-ups na dinamização económica e tecnológica do país?
Embora este prémio não se dirija às start-ups  – procuramos pequenas e médias já com algum percurso e dimensão – o valor que procuramos promover é o mesmo que tem animado o atual surto de empreendedorismo que se vê no nosso país.

A nossa cultura nunca foi especialmente amiga do espírito de iniciativa. De alguma forma fomos sempre encorajados a nos encostar a coisas mais “seguras”: um bom emprego numa empresa já estabelecida, ou, melhor ainda, sob a asa protetora do Estado, sempre atraíram mais os portugueses do que a aventura empresarial.

Felizmente, hoje o empreendedorismo está na moda. Mas, para que não seja só uma moda, é preciso que o apoio e o reconhecimento não vão só para quem inicia um projeto. Têm que ir também, e em força, para quem o continua, e tem a persistência de o transformar, não necessariamente num unicórnio, mas numa empresa “normal”: uma empresa sólida, bem gerida, dinâmica, dessas milhares que, sem grande alarde, tanto fazem pelo nosso país. Esse é o papel que, com o prémio Heróis PME, queremos desempenhar.

… as start-ups acabam por impulsionar as PME na inovação, desafiando-as a reinventarem-se.

O que podem também elas, as start-ups, fazer para impulsionar as PME?
Ao serem pioneiras em novas formas de olhar os mercados e indústrias as start-ups acabam por impulsionar as PME na inovação, desafiando-as a reinventarem-se. Obrigam-nas a inovar processos, testar novos modelos, posicionarem-se de outra forma nos mercados, obrigam-nas, sobretudo, a evoluir, a desenvolver e a abraçar o futuro. São o complemento perfeito para que as PME continuem a crescer e a marcar o ritmo de evolução dos mercados e da economia, tornando assim esta parceira a alavanca perfeita para o desenvolvimento e o crescimento da economia portuguesa.

O que esperamos é que muitas dessas start-ups se transformem rapidamente em belas e saudáveis PME. E que, quando isso acontecer, não se esqueçam de se candidatar aos Heróis PME. Estaremos aqui para lhes dar os parabéns pelo percurso.

Das várias histórias que passaram pelas duas edições dos Prémios, que conselhos pode retirar para partilhar com os nossos leitores?
Neste momento tenho um conselho que é também um convite: se é um pequeno ou médio empresário e só você sabe tudo o que passou para a sua empresa chegar onde chegou, inscreva a sua empresa na 3.ª edição dos Heróis PME. A sua história é um exemplo e merece ser conhecida.

Quais foram as histórias que mais o inspiraram?
Podia citar várias, mas o que me vem de imediato à memória é naturalmente a história e o percurso do Gabriel Costa, do CMM, o vencedor da 2.ª edição, que representam na perfeição o ADN da iniciativa.

Em plena crise económica, quando o governo cortou o apoio financeiro que garantia o tratamento fisioterapêutico de centenas de clientes, o Gabriel e a sua equipa aceitaram viver no vermelho durante um ano inteiro. Para não deixar os clientes sem tratamento. Para não despedir dezenas de colaboradores.

Quando tinha apenas 50 euros na conta e todas as razões para desistir, o Gabriel investiu. Quando tinha todas as desculpas para não agir, fez da crise uma oportunidade. Acreditou no seu projeto. E colheu os resultados, tendo hoje uma belíssima empresa, com um impacto social importantíssimo e que promete ir ainda muito mais longe. O Gabriel Costa é um exemplo de verdadeiro Herói PME.

As PME têm um impacto tremendo na nossa economia, não só pelo que produzem, mas também porque geram empregos (…)

Qual espera que seja o contributo desta iniciativa na economia nacional? Que cunho querem imprimir no mercado?
As PME têm um impacto tremendo na nossa economia, não só pelo que produzem, mas também porque geram empregos, promovem a coesão do território, viabilizam comunidades inteiras. É um efeito em cadeia gigantesco. Tudo o que pudermos fazer para promover as PME, ajudando-as a desempenhar cada vez melhor o seu papel, será positivo para a economia do país.

O facto de darmos a conhecer estas histórias de sucesso, construídas mesmo em contextos adversos, também visa contagiar positivamente os empresários e a própria sociedade portuguesa. Fazendo-nos acreditar no potencial que existe no nosso país e na nossa economia.

Alguma novidade prevista para a edição do próximo ano?
A terceira edição já começou. Nos dois primeiros anos não tivemos grandes alterações porque queríamos consolidar o modelo da iniciativa. Mas a terceira edição terá, sim, novidades. Vamos estar ainda mais próximos das empresas e das suas regiões.

Contrariando o centralismo económico, nas duas edições do Heróis PME já tivemos empresas de todos os distritos representadas. Mas ainda há muitas empresas para destacar. Para isso, temos previsto um conjunto de eventos que vão levar esta causa a diversos pontos do país.Temos também a TSF e o Dinheiro Vivo já confirmados como parceiros, o que nos permitirá dar ainda mais visibilidade às empresas vencedoras. E já temos garantido o apoio de outras marcas e entidades que partilham o nosso entusiasmo por este projeto. Para já posso revelar a Victoria Seguros, que está connosco desde a primeira edição, e a CCIP. Mas outras marcas estão quase a confirmar que estarão connosco. É um grande orgulho ver que esta é uma causa tão mobilizadora como idealizámos que seria.

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