Leia a entrevista a Manuela Veloso, uma mulher da ciência que integrou o primeiro departamento de “machine learning” do mundo. É cofundadora da International RoboCup Federation e investigadora no campo da inteligência artificial.

Atualmente professora na Universidade norte-americana de Carnegie Mellon e uma das primeiras mulheres a integrar o mundo das ciências computacionais, Manuela Veloso fala, entre outros temas, sobre o futuro da inteligência artificial e da disparidade de género no mundo das STEM (Ciências, Tecnologias, Engenharia e Matemática).

Formou-se em engenharia eletrotécnica no Instituto Superior Técnico de Lisboa, depois quando terminou o seu doutoramento em ciências da computação integrou a Carnegie Mellon University, em Pittsburgh, nos EUA, em 1992. Uma mulher portuguesa no mundo internacional de tecnologia quando esta ainda não tinha a dimensão atual. Quais foram os maiores desafios que enfrentou na altura e o que aprendeu?
Já estou nos Estados Unidos há 34 anos. No fundo foi começar uma nova área de estudo, visto que a ciência de computação era suficientemente diferente da área de engenharia eletrotécnica e nos EUA era tirar cadeiras, fazer investigação. Foi fascinante fazer investigação para a minha tese de douturamento na Carnegie Mellon porque no fundo era a parte toda de uma área nova e de estar num sítio onde havia muitíssima dedicação para fazer investigação de ponta. Era um sistema bastante mais rigoroso em termos de cursos e de cadeiras, visto que havia muitos trabalhos de casa com prazos de entrega dos trabalhos muitos rígidos e eu não estava propriamente habituada a isso, mas uma pessoa habitua-se.

A área onde exerce atividade é um campo onde trabalham predominantemente homens, certo?
Sim, realmente toda a parte de ciência, das chamadas áreas de ciência, tecnologia, engenharia, informática que é o STEM, todas essas áreas são dominadas por homens.

O que é que falta para que haja um maior equilíbrio de género nesta área?
O que se passa é que é preciso, no fundo, dizer que não há propriamente profissões predeterminadas, é preciso que as mulheres, raparigas e crianças pensem que tudo está ao seu alcance e eu realmente cresci a gostar de matemática e no fundo nunca, em minha casa ou nos ambientes que eu frequentava no liceu, me disseram que “ah a matemática, a engenharia não é para raparigas”, não houve esse tipo de conversa. No fundo, é preciso não ter estereótipos. Eu andei num liceu que se chamava Liceu Dona Leonor que era um liceu, no meu tempo, só de raparigas e nós de vez em quando temos umas reuniões das raparigas que se formaram todas no meu ano e aquilo é um grupo de mulheres, todas agora com 60 anos e é uma classe formidável porque é tudo bom. Há poucas engenheiras, mas há médicas, economistas, professoras, engenheiras, é uma coisa impressionante.

Foi uma geração de sucesso?
É verdade, somos todas mulheres extremamente dedicadas à ciência. Também há literatura, mas quer dizer, é um grupo de mulheres fantástico. Todas crescemos num ambiente em que as nossas famílias não disseram que não podíamos fazer algo por causa do género. Aqui, nos EUA, de facto, agora falando da época atual, para aumentar o número de mulheres há muito esforço para reforçar a presença feminina nas áreas técnicas. Na Carnegie Mellon, o nosso curso de “Computer Science” tem sempre aumentado as percentagens de raparigas na licenciatura. Na próxima classe que entra em agosto, 49% ou mesmo 50% são raparigas. É formidável. É o único sítio no mundo em que a percentagem de raparigas a entrarem na licenciatura de ciências dos computadores é 50% raparigas/50% rapazes. É formidável e tem sido um esforço enorme aqui na CMU (Carnegie Mellon University), nós temos uma associação que se chama “Women at SCS[School of Computer Science]” [Mulheres na Escola de Ciências Computacionais] e que é liderada por uma professora. Depois nos doutoramentos e nos mestrados não são 50%, mas são bastante mais altas que noutros sítios.

Visto que a inteligência artificial está na agenda do dia, o que prevê para esta área para um futuro próximo?
Vou reforçar uma ideia que também falarei na conferência Business Transformation Summit, em outubro. O que se passa é o seguinte: a inteligência artificial (IA) é uma área em que faço investigação desde sempre e a IA consiste, no fundo, na capacidade de ter computadores, fazer análises de informação e de tomar decisões, aprender. Computadores que são capazes de ser inteligentes. Estou a falar de fazer um espectro de raciocínio muito grande. Esta área é fundamental porque a nossa sociedade, cada vez mais, guarda dados. Tudo está digitalizado, tiramos fotografias, gravamos vídeos, tudo o que agora vivemos, os nossos GPS, os nossos telemóveis, tudo é digitalizado e passa a ser informação que está nos computadores. Daí que com esta informação toda que estamos a acumular é impossível pensar que nós vamos olhar para as fotografias todas, para os vídeos, para tudo e vamos conseguir processar tirar as conclusões interessantes. Daí que a IA é o veículo para determinar que esta informação é processada por algoritmos. Eu acho que a IA é fundamental se estiver ligada aos dados, digamos, à informação, a tudo o que está ligado aos computadores.

Ou seja, vai haver um desenvolvimento no que diz respeito ao processamento de dados e de informação?
Exatamente, um desenvolvimento muito grande, visto que estes dados atualmente são processados, mas também podem ser processados a um nível completamente diferente, visando suportar as decisões dos humanos, de forma a previsões. Será todo um outro nível de processamento quando nós estivemos mais IA para interpretar, perceber, usar os dados que recolhemos.

Que riscos devem ser acautelados com este crescente interesse e desenvolvimento de IA?
No fundo, toda a gente diz “o trabalho, vai tirar trabalho às pessoas”, mas eu penso que este é um caminho em que não se pode voltar para trás. Quando passaram a existir computadores disponíveis para o mundo inteiro e todas as pessoas começaram a programar e a desenvolver todo o tipo de algoritmos foi algo fora do comum. Não se pode pensar de outra maneira, senão em que temos de educar as pessoas. É uma responsabilidade das pessoas fazerem uso da IA para o beneficio da sociedade.

Sabemos que como qualquer tecnologia tem bons e maus usos. Portanto, a IA é uma tecnologia inventada por Humanos, não é uma tecnologia que caiu do céu e que não se sabe de onde vem, foi inventada sempre por cérebros humanos e daí que eventualmente as pessoas, digamos, têm de ter uma responsabilidade para utilizar a IA para bons fins. A IA é o que se chama a Quarta Revolução Industrial, mas de qualquer maneira, como qualquer revolução industrial, a Quarta Revolução Industrial também é responsabilidade da Humanidade. O desafio é ter-se mecanismos para educar as pessoas para o bom uso e eventualmente também para regular que as pessoas façam bom uso da tecnologia.

Desenvolveu os robots de serviço CoBot, autónomos e dotados de inteligência, capazes de percecionar as suas limitações e pedirem ajuda. Quais os maiores desafios que enfrentou no processo de desenvolvimento destes robots?
Foi realmente o introduzir este conceito de pedir ajuda que, de facto, foi muitíssimo novo. O interessante é ter os robots a mexerem-se dentro dos edifícios. Há a parte técnica de fazer com que eles se movam com segurança, ou seja, a parte mais técnica dos motores, dos sensores, dos algoritmos de planeamento. Por outras palavras, existe este desafio, mas também o de aprendizagem para que aumentem as suas capacidades ao longo do tempo ao interagirem com os humanos e ao fazerem perguntas.

É também cofundadora da International RoboCup Federation. O que esteve na base da sua criação?
O RoboCup é uma algo fascinante, porque primeiro permite fazer investigação de robots autónomos. O facto de existir uma equipa adversária num problema de futebol quando temos de desenvolver algoritmos em que não sabemos o que a outra equipa vai fazer do ponto de vista estratégico ou de perceção ou ação nem sempre é fácil, porque é difícil planear dentro da incerteza. A primeira coisa foi este problema do adversário da incerteza, a outra coisa é que o futebol de robots permitiu-lhes fazer a investigação, pela primeira vez muito concretamente em robots autónomos que funcionam em equipa. Do ponto de vista dos robots de futebol eles têm de atingir objetivos como marcar golos como uma equipa, daí a importância da parte de “multi-robot”, ou seja, de ter algoritmos em que as tarefas são distribuídas entre os robots.

Visto que é uma das oradoras do Business Transformation Summit em Portugal, quais as principais mensagens que vai trazer?
Vou tentar explicar um bocado mais sobre o que é a IA, porque, apesar de muitas pessoas falarem da IA, estou convencida que as pessoas não sabem muito bem o que significa do ponto de vista técnico.Portanto, vou explicar primeiro um bocado o que é a IA no mundo atual e em termos dos dados que existem. Depois vou também falar de “Humano AI Interaction” que é a interação entre os humanos e a inteligência artificial. Sobre este tema vou apresentar a minha teoria de que essa interação entre os humanos e a IA é uma interação de cooperação, os humanos têm de perceber como é que se usa e como é que interagem com estas máquinas inteligentes, mas também há uma necessidade das máquinas inteligentes serem muito mais transparentes para os humanos. Irei terminar a minha apresentação a explicar como é que tenho desenvolvido métodos para os meus robots inteligentes serem mais transparentes em termos de explicarem aos humanos as decisões que tomam e eventualmente responder a perguntas que os humanos podem fazer sobre a sua autonomia.

Que setores estão mais recetivos em relação à adoção de IA?
Acho que o setor financeiro é muito recetivo, também o setor de retalho e a saúde. O processamento de dados de saúde, dados do coração, do cérebro, tratamentos são áreas muito recetivas, assim como as áreas de energia, a área de clima, ou seja, no fundo as áreas em que as pessoas estão mais diretamente incluídas.

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