Um dos temas que neste momento alimenta mais discussões e conversas são as competências fundamentais a desenvolver para ter sucesso num futuro em que máquinas e homens vão conviver.

Na visão/opinião de David Deming, professor associado de Educação e Economia na Universidade de Harvard, competências como capacidade de negociação, partilha, empatia e cooperação serão fundamentais para se obter sucesso no futuro. Curiosamente estas são as competências que aprendemos no infantário, mas que em estágios posteriores deixam de estar integradas no sistema educativo.

Como curiosidade, recentemente assisti a uma sessão num infantário, em que os alunos eram convidados a desenvolver e apresentar um projeto sobre um animal. No final, as outras crianças eram convidadas a dar feedback. Confesso-vos que fiquei surpresa com a qualidade do seu feedback e pela forma como colocavam questões. O mais surpreendente, no entanto, foi que, sem lhes ter sido pedido, assumiram uma atitude construtiva, contribuindo generosamente com ideias para que o trabalho dos colegas ficasse ainda melhor. Quanto à professora, a última a pronunciar-se, deixou espaço aos alunos para interagirem uns com os outros.

Desta experiência tirei várias lições:

– Promova a criatividade;
– Crie o ambiente correto, para que cada um sinta que é verdadeiramente ouvido;
– Fomente a partilha e a co-criação;
– Dê espaço à equipa para que aprendam uns com os outros;
– Incite ao desenvolvimento da empatia.

E o que podem as organizações a aprender com isto?
Para quem está a criar a sua própria empresa, uma questão base passa por definir que tipo de organização quer desenvolver, que tipo de pessoas faz sentido recrutar e integrar na sua estrutura, e como garantir que as competências, que nos são inatas, são potenciadas em prol das pessoas e da organização.

Nesse contexto, o líder de hoje é também ele um facilitador. Alguém que cria o ambiente propício para que se debatam ideias, se fomente a critica construtiva, para que se estimule a criatividade e a co-criação, tendo como base o respeito e a empatia.

E se a relevância destas dimensões parece óbvia, é importante salientar que já começou a ser medida. A título de exemplo, num estudo realizado no Reino Unido, em 2015, “The Value of Soft Skills to the UK Economy”, concluí-se que as soft skills contribuíram para 88,5 mil milhões de libras, o que corresponde a 6,5% do valor acrescentado bruto da economia britânica. E a previsão é que esse valor vá ser ainda mais relevante no futuro.

Tendo estes dados em consideração, bem como os desafios futuros, não podemos olhar com displicência para o desenvolvimento das nossas competências pessoais, bem como daqueles que trabalham connosco. Num contexto em que o conhecimento está acessível a todos, e que as máquinas têm capacidade de processar grandes quantidades de informação, e tomar decisões complexas, torna-se insustentável um modelo de liderança que assenta apenas em conhecimento técnico.

Reconhecer essa necessidade é o primeiro passo para ter sucesso. Ter a humildade de querer aprender com quem ainda não foi sujeito a um processo de aculturação, que lhes cria preconceitos e que lhes limita a criatividade, é o sinal de que queremos desenvolver-nos.

Assim, da próxima vez que a oportunidade surgir, observe como se relacionam as crianças. E se for afortunado o suficiente, observe como se comportam duas crianças que não falam o mesmo idioma. Esteja atento ao contacto inicial, como se desenvolve a interação, e como encontram pontos de convergência, criando uma brincadeira que ambas conseguem entender e disfrutar.

Tão simples. Tão fácil. Tão inclusivo!

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Sobre o autor

Anabela Possidónio

Anabela Possidónio é diretora executiva do The Lisbon MBA e Executive Coach certificada pela ICF. Anteriormente à função que desempenha atualmente, esteve 20 anos no mundo corporativo, 14 dos quais na BP, tendo trabalhado em Portugal, no México, em Espanha... Ler Mais