Saber gerir e lidar com o stress é importante não só no local de trabalho, como também é essencial para mantermos uma relação pessoal saudável. Leia os conselhos de dois especialistas no tema.

“Eu sei que o teu emprego é stressante, mas tens de desligar do trabalho quando chegas a casa.” Quantos de nós não ouvimos este conselho de amigos, conhecidos ou colegas?

A verdade é que nem sempre é fácil desligar-nos do trabalho. A conexão que temos com o que se passa nas 40 (ou mais) horas semanais passadas no escritório mexe com a vida pessoal. Não se trata de um cabo ou de botão que possa ser desligado. Saber gerir e lidar com o stress é importante não só no local de trabalho, como também é essencial para mantermos uma relação pessoal saudável – especialmente com a sua cara-metade.

Isto é particularmente importante quando os dois elementos do casal têm uma carreira profissional agitada. Nesta situação, pode também haver mais empatia e compaixão, visto que os problemas são familiares a ambos. Segundo Jennifer Petriglieri, professora assistente de comportamento organizacional na INSEAD (França), “quando um casal é bom a gerir o stress, [os dois lados]tornam-se mais resilientes”. Já John Coleman, coautor do livro Passion & Purpose (Paixão & Propósito),  encara a situação não como duas pessoas a gerir o stress, mas sim como “parceiros a geri-lo juntos”.

Mas como é que isto pode ser conseguido?

Ouvir (com atenção). Como refere Petriglieri, quando a sua cara-metade chega a casa visivelmente irritada e começa a contar os últimos acontecimentos do local de trabalho, a tendência é fingir que está a ouvir. Contudo, este ato pode criar ainda mais irritação no seu parceiro. Focarmo-nos sobre o que outra pessoa se está a queixar e não interromper são dois conselhos que a especialista em comportamento organizacional partilha. Já Coleman explica que não temos obrigação de dar conselhos: “não precisa de ser um solucionador de problemas constantemente. Às vezes o seu parceiro só precisa de ser ouvido”.

Oferecer apoio. É importante que saiba que a resistência ao stress não é uma competição. “Quando o seu parceiro se começa a queixar não diga ‘pensas que o teu dia foi mau, então ouve aquilo que eu passei hoje!’ Isto não ajuda”, explica Coleman. No entanto, nem sempre estamos psicologicamente preparados para ouvir a nossa cara-metade a queixar-se. Nestas situações, Petriglieri recomenda que deixe a conversa para depois, mas sempre de forma a que “deixe a porta aberta para a poder continuar”. O mais relevante é prestar atenção e mostrar compreensão.

Ser o coach de carreira. Duas pessoas que estão numa relação duradora conhecem-se como ninguém. Esta circunstância pode ser utilizada para ajudar a sua cara-metade a desmistificar alguma ação que pode ter interpretado mal. “Tem de dizer alguma coisa se achar que o seu parceiro está a ler mal uma situação de trabalho ou a caminhar na direção errada”, afirma Coleman. Uma boa solução é colocar questões que façam o seu parceiro ver as coisas de uma perspetiva diferente. “Às vezes só precisa de identificar um ângulo morto”, explica o autor.

Refletir e interpretar. Se o seu parceiro tiver dificuldades em gerir o stress é importante que se mantenha a par da situação. Neste sentido, é relevante que saiba que existem dois tipos de stress: o esporádico, que acontece a todos nós e que é fruto de um dia de trabalho menos bom , e o crónico, que já é uma pressão emocional sofrida durante um longo período. É com este segundo que tem de haver uma preocupação maior. Para conseguir interpretar e melhorar este aspeto da vida do seu parceiro, a professora universitária sugere que tenha em atenção “a atitude, o humor e os padrões” e afirma que, caso seja persistente, é possível que o seu parceiro “esteja no emprego errado”. Questionar com alguma frequência como é que se sente e que futuro vê na empresa em que se encontra é uma boa forma de conseguir fazer este tipo de interpretações.

Encorajar amizades e interesses. Apesar de poder mostrar-se disponível para o ajudar nos dias mais agitados, isto não significa que seja “o único depósito de stress do seu parceiro”, explica Coleman. Até porque esta sobrecarga pode prejudicar a relação.
Segundo o autor, “por norma, os nossos parceiros são as pessoas com que contamos mais. Mas, em demasia, pode magoar a relação”. É por este motivo que Coleman acredita que temos de ajudar as nossas caras-metade a criarem um terceiro espaço – um local que seja afastado do conceito de casa ou de trabalho. “Dê-lhe a oportunidade e espaço para perseguir as coisas que ele gosta – como um hobby ou um desporto”, afirma o autor.

Tornar a sua casa o seu refúgio. “Há alturas do dia em que os dois têm de se desligar dos telemóveis. É preciso criar barreiras para quando os aparelhos de trabalho podem ser utilizados em casa”, aconselha Coleman. O autor sugere ainda ouvir música, um audiobook ou fazer uma caminhada no final do dia para descomprimir.

*fotografia por Shea Rouda.

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