Que o empreendedorismo é fundamental para o desenvolvimento económico e social já ninguém tem dúvidas. No entanto, a expressão “empreendedorismo de base tecnológica”, tantas vezes utilizada, continua a suscitar questões…

Vamos ao longo deste artigo procurar contribuir para alguma clarificação, definindo “empreendedorismo”, “tecnologia” e “empreendedorismo de base tecnológica”.

Tal como comummente aceite na literatura, “empreendedorismo” designa o processo de identificação e exploração de uma nova oportunidade. Ao estar alicerçado no conceito oportunidade, o “empreendedorismo” está indissociavelmente associado à inovação (i.e. à combinação de meios e recursos para produzir novos fins), e à geração de valor (que vai para além da mera geração de lucro). Tal associação revela-se fundamental, quando as estatísticas (ex. INE, PORDATA) mostram que os negócios inovadores – novos e diferenciadores no mercado – crescem mais e geram mais valor!

“Tecnologia”, como amplamente divulgado pelo guru Peter Drucker, combina a tekhne, a “técnica” (a arte, o ofício) com a logia, o “estudo”, envolvendo a transformação e aplicação do conhecimento em ferramentas de ação. No contexto das organizações e das empresas, e tal como tive ocasião de definir num Manual de Gestão de Recursos Humanos [1] que publiquei recentemente, “tecnologia” constitui o processo transformador dos inputs (todos os recursos utilizados no processo produtivo) em outputs (resultado final da produção). Em termos operacionais, qualquer organização ou empresa se carateriza por possuir uma tecnologia, desde a mais simples e rápida (ex. fabrico de pão, cujo resultado final requer misturar, amassar e aquecer água, farinha, fermento e sal), à mais complexa e demorada (ex. formação de um “licenciado”, que envolve a realização bem-sucedida de um programa curricular, envolvendo vários docentes especialistas, realização de trabalhos, exames, entre outros).

Da agregação dos dois conceitos, obtemos o “empreendedorismo de base tecnológica” que designa o processo de identificação e exploração de uma oportunidade inovadora, que transforma o know how técnico e científico numa ferramenta e/ou aplicação, geradora de valor. Desta forma, e como tão bem definido em termos teóricos [2] e práticos (ex. Agência Nacional para a Inovação), o “empreendedorismo de base tecnológica” procura implementar soluções inovadoras (baseadas na transferência de conhecimento de vanguarda) capazes de ir ao encontro das necessidades reais. Neste sentido, o “empreendedorismo de base tecnológica” estende-se desde as áreas mais hard (exs. Física, Química, Biotecnologia, …) até às mais soft (exs. Ciências Sociais, Humanas, Políticas, …).

Em síntese, o “empreendedorismo de base tecnológica” tem como intuito propor soluções inovadoras, novas e diferenciadoras no mercado, que permitam dar “um passo em frente” em qualquer esfera da vida humana … desde a produção de um novo medicamento, à implementação de modelos mais eficazes de liderança. Por tudo isto o “empreendedorismo de base tecnológica” é tão bem-vindo…!

* Coordenadora da Escola de Liderança e Inovação do ISCSP – Universidade de Lisboa

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[1] Palma, P. J. & Pitacho, L. (2017). Teoria Organizacional: Equipas e Organizações. In Lopes, M.P., Lopes, A., Botelho, C., Palma, P. J.,  Marujo, H. A. & Gomes, C., Manual de GRH. Lisboa: Edições ISCSP (Vol. II).

[2] Bailetti, T. (2012). Technology Entrepreneurship: Overview, Definition, and Distinctive Aspects. Technology Innovation Management Review, 2: 5 – 12.

 

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Sobre o autor

Patrícia Jardim da Palma

Patrícia Jardim da Palma é doutorada em Psicologia das Organizações e Empreendedorismo e Professora no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa (ISCSP- ULisboa). É coordenadora das Pós-graduações “Gestão de Recursos Humanos” e “Empreendedorismo e Inovação”... Ler Mais