Há alguns anos, claramente não interessa quantos, sob pena de revelar demasiados factos pessoais, vi rotulada a minha geração como “rasca” pelo então executivo no poder, bem como pela generalidade da imprensa nacional.

Para aqueles que não se recordam do tema, nomeadamente os – relativamente – mais novos, toda a questão girava em redor da realização ou não da malfadada PGA, ou eruditamente dizendo, Prova Geral de Acesso ao ensino superior. Num laivo apelidado de reacionário, a “minha” geração uniu-se como há muito não se via e protestou ativamente contra o que considerava ser um exame descabido e injustificado (vide os tais relativamente mais novos como as coisas pouco mudam com o passar das décadas), no que na altura não me parecia mais do que um exercício legítimo de democracia, assente no direito de reunião popular e de protesto.

Sucede, porém, e há sempre um mas, que alguns – poucos – manifestantes tomaram em si a liberdade de ir um pouco além do que a liberdade ditava e, sem pejo nem pudor, ostentaram (sim, o termo é mesmo esse) tudo o que puderam (e sim, também o termo é mesmo esse, basta procurar as infelizes capas dos diários desse Verão) para mostrar o seu desagrado. Aí, nesse fatídico instante, em que um adolescente decide dar a conhecer-se ao Mundo mais do que devia, um pouco como fazem milhares todos as noites após saírem dos bares e discotecas espalhados pelo país (lá está, não há máquinas fotográficas em todo o lado e, nesse caso, é mesmo só uma questão fisiológica e não um protesto contra o Governo), nasceu a geração “rasca”, a minha.

Ora, todas as gerações têm algo que as define. Sejam as que conquistaram a liberdade, as que lutaram pela integração europeia, a nova vaga dos millennials, enfim. E depois há… a “rasca”. Não se usa muito o termo, mas, se formos analisar bem as coisas, o repúdio social continua lá. Em certa medida, parece que a minha geração ficou ali, numa encruzilhada, marcada pelo estigma da vulgaridade que não a deixa progredir. De um lado estão os “decanos”, aqueles que conquistaram a liberdade, conseguiram a Europa e que, ao olharem para “baixo” e verem quem aí vinha, rotularam-nos de “rascas”. Quiçá pela sua preocupação extrema, viram-se então incapazes de largar o poder, de renovar a sua maneira de ser, permanecendo geriatricamente nos cargos até que não haja mais capacidade de continuar, um pouco na lógica papal de serviço até à morte. Falta só saber a quem servem, claro está.

Mas a verdade é que, quando olhamos para o tecido empresarial, a tal geração “rasca” mostra capacidade e inventividade acima daqueles que os precederam, colocando Portugal cada vez mais no Mundo, através das suas empresas, da sua gestão, das suas start-ups, disseminando a sua política pouco a pouco no seio dos partidos, sempre alertas e esperando a oportunidade de um dia substituir a camada mais “antiga” que, ano após ano, teima em aumentar inexoravelmente a idade legal da reforma.

O tempo chegará, pensava eu, mas a realidade ultrapassa-nos tão depressa como as novas tecnologias. Ainda a malta da minha geração olhava para os telemóveis e portáteis como uma arma na qual ultrapassavam a anterior geração, quando, sem apelo nem agravo, ocorreu esse “trágico” virar de milénio e, com ele, esta nova vaga de brainiacs altamente especializados e tecnologicamente avançados que, acima de tudo, geram riquezas instantâneas e controlam os padrões de consumo mundiais. E a sua força cresce, evidentemente, de dia para dia, correndo a velocidades imparáveis para substituir a geração acima da sua – sim, a “rasca”, a minha – aquando do já próximo ocaso dos “decanos”.

E o que faz a minha geração, frente a esta encruzilhada em que, de um lado, uns não abdicam do poder e, do outro, chegam outros ávidos e impiedosos? Uns fogachos, aqui e ali, mas não consigo deixar de sentir que, na grande maioria dos casos, estamos um pouco como o príncipe Carlos, sempre a pensar que não só a mãe não morre, como, quando isso acontecer, é o filho dele que os outros lá querem meter. E isto tudo porque alguém decidiu mostrar os genitais em público. Espero sinceramente que não e, como forma de protesto, vou começar uma campanha de tweets, já aderi ao Insta, cada vez uso mais o Face, aprendi a colocar adequadamente os emojis, vou passar a entrar em restaurantes vegan e tirar fotos para mostrar que sou saudável, plantar mais árvores porque amo a sustentabilidade e, acima de tudo, até já me convenci de que o pagamento das quotas do ginásio serve para podermos efetivamente lá entrar de vez em quando. Podemos ser uma geração “in between”, mas não temos tão pouco valor como tantos pensam e, quem sabe, muito em breve sejam surpreendidos, acima e abaixo!

Comentários

Sobre o autor

Nuno Madeira Rodrigues

Nuno Madeira Rodrigues é atualmente Chairman da Lusitano SAD e da BDJ S.A. Anteriormente, foi Administrador do Grupo HBD e Presidente do Conselho de Administração da Lusitano, SAD, e do Conselho Fiscal da Associação Lusófona para as Energias Renováveis. É... Ler Mais