Entre o já habitual mas estranho ruído que antecede o dia de Natal, esmagado pela overdose de e-mails corporativos de Boas Festas com vídeos e músicas mais ou menos alusivas à época, a começar a ronda de jantares de Natal e a fazer as prendas de última hora… tic-tac tic-tac, o relógio não pára.

Mas ainda há tempo para lançar um olhar para trás e fazer o balanço, ainda que em velocidade ultra-sónica, do que foi 2017 e começar a pensar em 2018.

O Novo Ano traz-nos sempre uma imensidade de desafios, promessas e desejos, quer a nível pessoal como profissional pelo que escolher um desafio não é tarefa fácil. Escolho um que será relativamente comum às empresas e gestores: a contratação e gestão de talentos.

Com a economia a manter sinais de crescimento, a pressão sobre o mercado de recrutamento será bastante maior para o ano uma vez que Portugal está (outra vez) na mira do Investimento Directo Estrangeiro (IDE). Por outro lado, aumentou o número de empresas que planeiam contratar mais pessoas para o ano, não só para dar resposta a planos de expansão, como também para concretizar novos investimentos. É o caso, entre muitos outros, do sector dos serviços, em particular os shared service centres que está ao rubro com o anúncio de novos investimentos previstos para os próximos anos em Portugal. Acresce a tudo isto o facto de ainda termos muitos jovens licenciados a viver no estrangeiro.

É pois provável que venhamos a assistir a um aumento médio dos salários, nomeadamente nos níveis de entrada, podendo isto significar o “fim” da geração dos 1.000 euros. Será certamente bom para muitos mas exigirá, por parte das empresas, uma revisão da estrutura de custos para garantir que mantêm níveis de competitividade. Sem isso, não poderemos continuar a atrair IDE que, como sabemos, olha para Portugal mas também para outros países da UE como a Polónia e a República Checa. Não defendo um país “low cost”, mas também não quero ver Portugal (voltar a) ser ignorado no mapa do investimento global.

O equilíbrio não é fácil mas é possível.

Quero com isto dizer que para atrair e reter talento não basta aumentar o salário base ou pelo menos não passa necessariamente por aí. Há outras formas de promover a atração e retenção de talento. Desde logo, a oferta de benefícios flexíveis que cada colaborador escolhe em função da sua idade e gostos pessoais. São cada vez mais as empresas que oferecem benefícios como ginásios, massagens, programas de desenvolvimento pessoal para além de seguros de saúde, vida e acidentes pessoais ou planos de pensões. Numa lógica de choose-yourself, o colaborador constrói o seu pacote de compensação total.

A construção de ambientes inclusivos que respeitam e promovem a diversidade, bem como a construção de estruturas holocráticas de gestão, em que se reduzem ao mínimo, ou se extinguem, as funções de chefia, também se traduzem em níveis mais elevados de atração e retenção de talento. Para tal, é fundamental o envolvimento dos líderes de topo (a começar pelo CEO), de forma visível e consistente, dando um sinal claro de que faz parte da estratégia da empresa a promoção destes ambientes. Começa, desde logo, pelo CEO assumir (e pôr em prática) a necessidade de criar estes ambientes inclusivos através da promoção da diversidade de opiniões, da criação de ferramentas de feedback imediato ou da implementação de processos de co-decisão envolvendo todas os níveis funcionais da empresa. As empresas que têm optado por este caminho, vêem os níveis de compromisso e felicidade dos seus colaboradores aumentar sistematicamente.

Como acredito que pessoas felizes fazem mais, melhor e por mais tempo parece-me ser um bom caminho a seguir. Espero que, em 2018, mais empresas abracem este fantástico desafio em Portugal.

Não é fácil, mas é possível.

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Sobre o autor

Diogo Alarcão

Diogo Alarcão é Chairman da Marsh & McLennan Companies Portugal e CEO da Mercer Portugal. Como Chairman tem a responsabilidade de liderar um Comité de Gestão do Grupo MMC em Portugal; promover as soluções do Grupo MMC em Portugal; promover a relação com clientes e outras partes interessadas; promover as sinergias com os líderes de cada empresa do Grupo MMC. O Grupo Marsh & Mclennan Companies é composto por quatro... Ler Mais