2017 não vai ser apenas mais um ano, igual a tantos outros.

Tem-se vindo a verificar uma série de acontecimentos a nível mundial que podem conduzir a alterações significativas no equilíbrio de forças no quadro internacional.

Portugal não pode ignorar esta situação.

A grave crise política e estrutural que envolve a União Europeia é para nós a preocupação de fundo. Ela tem na sua base as incertezas provocadas por falta de estratégia e por medidas avulsas que põem em causa o próprio futuro da UE.

A crise gerada pelo Brexit, cujas consequências estão longe de estar avaliadas, veio tornar todas as fraquezas da UE ainda mais evidentes.

A questão dos refugiados gerou reações políticas e sociais em vários países, despoletando movimentos emocionais de opinião pública, reações políticas fraturantes e a emergência de forças populistas e extremistas de oposição à própria UE e aos partidos políticos que compõem os governos.

As eleições políticas previstas para 2017 em vários países (França, Alemanha, Itália, etc.), além de provocarem uma paralisia nas instituições europeias, apontam para a possibilidade da formação de governos que põem em causa políticas da UE e podem agravar ainda mais este quadro.

A agravar a situação, temos a eleição de Donald Trump para Presidente dos Estados Unidos da América, país líder político, económico e militar (Nato) do chamado «mundo ocidental», que anuncia alterações na atitude dos EUA a nível internacional e sobretudo a diminuição de compromissos. Mesmo com a Europa, que tem sido o principal aliado dos EUA.

Trump já anunciou uma relação diferente, dialogante, com a Rússia de Putin, uma reavaliação em relação aos diferentes palcos do Médio Oriente, uma atitude mais polémica com a China e um diálogo amigável com forças populistas e extremistas na Europa (Farage, Le Pen, etc.). Os colaboradores que escolheu para o governo são coerentes com estas posições.

Não podemos observar tudo isto como meros espectadores.

Imagine-se só por um momento que Putin, sentindo-se animado com a «simpatia» americana, pressione a UE na Ucrânia, nos países de Leste, pondo em causa as «sanções económicas» por esta impostas à Rússia. Seria a descredibilização total da UE.

Pense-se também na hipótese de os EUA diminuírem os seus compromissos no âmbito da Nato na Europa, sobrecarregando-a com um esforço militar que era partilhado, sendo certo que a Europa não pode recuar, se quer garantir a sua segurança no Mediterrâneo, no Atlântico, no Leste.

Se a política americana avançar nas linhas anunciadas por Trump, dando força à atitude antieuropeia de Putin – a UE teria dificuldades em ultrapassar a atual crise e em lançar-se numa nova fase de crescimento.

A Europa viria a sofrer graves consequências políticas e económicas resultantes de uma eventual evolução isolacionista dos EUA. A crise da UE agravar-se-ia.

Portugal, sem margem económica e financeira para resistir, estaria entre os mais prejudicados.

  1. Portugal deve estar atento

Portugal não pode ser mero observador das situações e ficar à espera que se resolvam por si.

Com a especificidade da sua posição geográfica, as limitações da sua dimensão e do seu peso económico e político, tem que acompanhar com atenção a evolução do quadro internacional em que se integra e agir, dentro das suas possibilidades, com inteligência e bom senso.

As instituições e os responsáveis políticos têm que assumir as suas responsabilidades e informar os cidadãos e a opinião pública da evolução do quadro internacional, de forma a criar uma atitude esclarecida e responsável e mobilizar vontades.

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Sobre o autor

Vitor Neto

Vítor Neto é empresário e gestor. Presidente do Grupo empresarial Teófilo Fontainhas Neto (Algarve) e do NERA (Associação Empresarial do Algarve), é Vice-Presidente da AIP-CCI e Membro da Direção da CIP-CEP (Confederação Empresarial de Portugal), bem como Presidente da Comissão... Ler Mais