O Brexit, a concorrência dos Estados Unidos e da China, o acesso a financiamento, a integração das regiões menos desenvolvidas ou o papel da mulher, são questões que ainda continuam pendentes de resolução e que podem atrasar o desenvolvimento do ecossistema empreendedor.

O Instituto Europeu da Inovação e Tecnologia (EIT, na sigla em ingês) celebrou recentemente o seu aniversário e fez um balanço das ideias-chaves e deveres pendentes na sua década de vida.

Dez anos se passaram desde que o EIT viu a luz do dia. Um organismo criado pela Comissão Europeia e cujo objetivo era ajudar as empresas e as instituições de ensino e de investigação a trabalhar em conjunto para criar um ambiente propício à inovação e ao espírito empresarial na Europa. Foi fundado com olhar posto em países como os Estados Unidos e a China, acelerando o ritmo para não ficar para trás nos negócios do futuro.

Passo a passo, foram reunidos mais de 2.400 milhões de euros de financiamento, criadas mais de 1.250 empresas que levantaram mais de 890 milhões de euros de financiamento externo. Com o peso de uma década, o EIT fez um balanço da sua existência, durante o seu congresso anual, em Budapeste.

No seu discurso durante a cerimónia de entrega de prémios do organismo, o Comissário da Educação, Cultura, Juventude e Desporto, Tibor Navracsics, salientou: “Através do EIT, a União Europeia investiu em empresários de toda a Europa, estabelecendo uma rede única, ajudando a criar uma cultura de negócios e oferecendo suporte a iniciativas de negócios espalhadas por todo o mundo”.

No entanto, ainda há muitas questões pendentes. Conheça os 10 deveres que a Europa ainda tem para resolver no ecossistema empreendedor e que foram citados pelo Business Insider.

1. Corrida com os Estados Unidos e a China

A Europa não quer perder a linha de inovação a que os Estados Unidos e a China já nos habituaram. Houve, de fato, vários oradores que, durante o congresso da EIT, apelaram para a promoção de uma mentalidade inovadora no Velho Continente. “Precisamos de pessoas que criem uma comunidade, que identifiquem problemas e queiram mudar a maneira como o sistema funciona”, disse a CEO da Climate-Kic, Kirsten Dunlop.
Também Markku Markkula, primeiro vice-presidente do Comité Europeu das Regiões, se pronunciou: “Não somos os Estados Unidos. A competição entre estados não é um problema, mas aqui representa 20% da equação”.

2. Financiamento

Quando o ecossistema empreendedor do Velho Continente é comparado com o americano e o chinês, surge a questão do financiamento. E este foi um dos painéis de destaque, que mereceu a atenção do público que falou da forte injeção do governo norte-americano na empresa de Elon Musk.

O exemplo serviu para refletir como, em outros países, o acesso ao financiamento contribuiu para competitividade do ecossistema. Falou-se da melhoria do acesso ao financiamento para empresas através de novos instrumentos e investidores, que se tornam um ator poderoso e competitivo no Velho Continente. “É uma competição global na qual os EUA e a China estão a esforçar-se muito”, alertou o CEO da Skeleton Technologies, Taavi Madiberk.

3. Trabalho paralelo: EIT vs EIC (European Innovation Council)

A Europa criou em 2015 outra “ferramenta” para promover o seu ecossistema de start-ups: o Conselho Europeu da Inovação (EIC). A instituição, promovida pelo comissário europeu para a Investigação, Ciência e Inovação, Carlos Moedas, tem como objetivo promover a transferência para o mercado das novas tecnologias na União Europeia. Paralelamente ao EIT, centra-se nas fases de crescimento e escalonamento das start-ups. Embora afirmem que os dois organismos existem e trabalhem juntos, há aqueles que são mais críticos e que, de alguma forma, apontam para uma divisão de funções das duas entidades.

A este respeito, os porta-vozes do EIT argumentaram que se trata de ecossistemas diferentes, mas que devem funcionar em conjunto, já que têm um papel diferente.

4. Multidisciplinaridade

O diretor da equipa executiva do IET, Dirk Jan van den Berg, sublinhou a dinâmica exponencial que o empreendedorismo tem assumido na Europa e colocou especial relevância nas equipas multidisciplinares, elemento essencial para que o produto possa alcançar os diferentes mercados.

O organismo colocou em destaque a necessidade de promover a integração de perfis de diferentes disciplinas em equipas de negócios e de diferentes nacionalidades. Afinal, esta é a receita que a Europa seguiu para promover a inovação. Mas também se refere às comunidades empreendedoras que criou em torno de diferentes setores: energia, saúde, mudanças climáticas, alimentos, matérias-primas e digital.

5. A questão do Brexit

Como era de esperar, as ameaças sobre um possível Brexit foram referidas pelo EIT. O organismo não quer perder o potencial científico e empresarial britânico, mas alerta que é um problema para a instituição: “não é o que queremos. Queremos o ecossistema científico e empresarial do Reino Unido, com suas comunidades de inovação”.

6. Maior integração dos países orientais

Ainda há um longo caminho a percorrer, na opinião dos países da Europa Oriental. Assim, a conferência também serviu para destacar a desigualdade latente no ecossistema empreendedor europeu, um aspeto que  ficou evidente nas palavras do Ministro da Inovação e Tecnologia da Hungria e secretário de Estado da Economia, Estratégia e Regulamentação, László György, que apelou abertamente para “a importância da inovação na Europa de Leste”.

O ministro húngaro considerou que a competitividade aumentou a nível europeu: “Se olharmos para os projetos do Horizonte 2020, 13 países beneficiam de 50% destes fundos. Se não mudarmos esta realidade, perderemos a corrida com outras regiões”. György pediu para promover a inovação na Europa Oriental para que “todos os países beneficiem dela”.

Aproveitando a sua intervenção, Lambert van Nistelrooij, membro do Parlamento Europeu e do Comité de Desenvolvimento Regional, disse que “há um grande futuro pela frente para o ecossistema de inovação europeu. É preciso incluir também as regiões menos desenvolvidas para manter a Europa unida. [É preciso] Mais inovação e menos nacionalismo “.

7. Mulher

Tem sido, e continua a ser, um tema quente. O EIT aproveitou a entrega de prémios para destacar o papel das mulheres no ecossistema inovador europeu e fê-lo através da atribuição de um prémio específico com a criação da categoria Mulher. “É uma pena que tenhamos que criar este prémio, mas a igualdade de género não é algo que tenhamos já alcançado”, refletiu Dirk Jan van den Berg.

8. Quadro regulamentar

Um dos deveres da Europa é melhorar o seu quadro legislativo para promover novos modelos de negócios, de que é exemplo a Uber ou o Airbnb. Neste sentido, van den Berg, diretor executivo do EIT, disse que a instituição participaria na conceção de novas políticas europeias que promovam a inovação.

9. Rede de inovação

Voltando às suas raízes e principal objetivo de criar comunidades de empreendedorismo especializadas em toda a Europa, a EIT enfrenta o desafio de ampliar ainda mais a sua rede e de unir os diferentes profissionais.

Para isso, o diretor executivo do instituto revelou que a entidade promoverá a educação nas áreas da Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM, na sigla em inglês), mas não só. A sua intenção é também romper com as barreiras e superar as diferenças de género.

10. Inovação dinâmica

A organização, composta por comunidades especializadas nas questões de empreendedorismo – saúde, energia, mudanças climáticas, alimentação e digital – é também um amálgama de identidades. Identidades que transcendem fronteiras e não apenas setores ou perfis profissionais. Falamos de países.

Linnar Viik, co-fundador da E-governance Academy, também falou da necessidade de espalhar a mentalidade empreendedora em toda a Europa: “É importante ver que os sistemas nacionais funcionam e tentam copiar e promover padrões semelhantes”.

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